terça-feira, 26 de julho de 2016

Como curar um fanático

(Amós Oz – Companhia das Letras – 2016) "Retirado en la paz de estos desiertos,
com pocos, pero doctos, libros juntos,
vivo en conversación com los difuntos
y escucho com mis ojos a los muertos"
Quevedo

Três conferências, um artigo e uma entrevista com o hiperpacifista Amós Oz, conhecido no Brasil por suas novelas, algumas autobiográficas, sobre a interminável questão Israel-Palestina. Neste livro o antimágico de Oz procura analisar uma de suas preocupações mais candentes de quem nasceu em Jerusalém e fala daquele lugar conflagrado para o mundo: a questão do fanatismo na conduta humana.

Inicia falando sobre a curiosidade como condição para o trabalho intelectual e científico. Esta qualidade é também uma virtude moral. Uma pessoa interessada é sempre melhor porque adquire o costume de ponderar quando os destituídos desta virtude já tem uma ideia pronta. Pessoas sem curiosidade vivem no conforto da rotina, não sentem necessidade de buscar aquilo que está mais além do que já sabem, de explorar o desconhecido e de obter recompensas espirituais gratificantes pelo esforço despendido.

A segunda qualidade humana apontada é o humor, que somado à curiosidade, constitui os dois antídotos contra o fanatismo. Segundo Oz, fanáticos não têm senso de humor e raramente são curiosos.

Se o humor corrói o fanatismo por questionar a verdade, a curiosidade permite buscar respostas que não se limita à cartilha do assentado como definitivo. Para Oz, a fofoca também é filha da curiosidade. Mas a fofoca adora os clichês e reitera nossos preconceitos não saindo da superficialidade do já sabido.

A seguir, narra seu entendimento sobre a questão do mal: primeiro, que a dor que infringimos aos outros é do nosso conhecimento. É mentira que não sabemos que nossas atitudes ferem os outros. Porém, na moralidade do mal, a maior dificuldade consiste em distinguir suas gradações. Por exemplo, o roubo, a pilhagem e a exploração humana. O estupro e o assassinato. A opressão de mulheres, de minorias e a colonização dos povos. O genocídio, a destruição do meio ambiente. E assim, sucessivamente, com as Cruzadas, a Jihad, a Inquisição e os Gulags.

E conclui dizendo que aquele que não sabe distinguir as gradações do mal poderá ser seu servidor. Por isso, o “crescimento do fanatismo pode ter relação como fato de que quanto mais complexas as questões se tornam, mais as pessoas anseiam por respostas simples”. Isto favorece o fanático porque para ele sempre existe uma só resposta para todo o sofrimento e a problemática humana. Acreditar que uma coisa ruim deva ser extinta, incluindo aquilo que lhe está próximo, se concilia com a ideia de que o fanatismo se origina da “vontade imperiosa de modificar o outro para seu próprio bem”.

Significa dizer que o fanático é um altruísta extremado: está mais interessado no outro do que nele mesmo. Sendo pessoas que sequer valorizam a vida privada, o self, eles misturam a autopiedade com o desejo ardente de uma redenção instantânea consubstanciada em um só golpe.

Os antídotos para o fanatismo seriam o humor, o ceticismo e a argumentatividade. Ser jocoso é um sinal da propensão cética de duvidar de uma verdade absoluta e não se importar com a verdade alheia.

Para Oz, o conflito árabe-israelense não é uma tragédia entre o bem e o mal de um lado, mas, uma tragédia no sentido maior do termo: um conflito entre o certo e o certo. Para ele, ambos os lados tem suas razões e seus erros.

Ele detectou a questão da traição e do traidor. O traidor é aquele que muda de opiniões, enquanto o resto de suas amizades e familiares permanece em suas antigas opiniões. Aqueles que não conseguem mudar, não obstante, são os que querem mudar você. E se alguém quer mudar você contra sua vontade significa que você será perseguido por ter sofrido a mudança que aos olhos dos outros se transformou em uma transgressão que deve ser punida.

Outro ingrediente do fanatismo é o sentimentalismo: o fanático prefere sentir a pensar, e possui um fascínio particular pela própria morte. Imaginam o paraíso como um mundo factível e ao alcance dos destemidos e heróis, ao mesmo tempo que desprezam o mundo corrente. Conformidade e uniformidade são as fórmulas amenas do fanatismo. Mas também o culto de líderes carismáticos, políticos ou religiosos, estão nesta categoria.

A essência do fanatismo reside no desejo de forçar os outros a mudar. Eles querem nos redimir, e não poupam esforços para isso, desde a catequização até a destruição consciente do Ocidente. Por fim a cura vem no desenvolvimento do senso de humor, pois é impossível alguém com senso de humor tornar-se fanático.

Aqui terminam as ideias de Amós Oz. O que eu teria a acrescentar em apoio as suas contribuições está na própria literatura. Me refiro a obra de Rabelais, um dos primeiros surtos de riso que surgiu para espantar o espírito piedoso e mortificado com que a humanidade viveu até o Renascimento, onde, segundo a teoria de Mikail Bakthin, o riso começou a destruir todos os dogmas e incendiar a imaginação humana a ponto de afastá-la do fanatismo cristão para sempre. O riso medieval foi uma insurgência da razão contra o espírito piedoso e a falsidade hipócrita causada pelo medo da heresia. Bakthin que viveu e foi perseguido durante o período de Stalin (foi salvo de desaparecer no Gulag pela comutação da pena para um lugar mais ameno), entendeu o poder dessacralizador do riso, a sanidade do banquete e da celebração como realidade existencial. Sua teoria aponta a importância da separação entre a vida oficial e a vida popular, o mundo sombrio dos dogmas e restrições do mundo carnavalesco e espontâneo do povo.

A importância do dionisíaco nos remete à Nietzsche que entendeu com clareza a cura contra o fanatismo pela impossibilidade pessoal de vive-lo em sua plenitude. Nietzsche tinha problemas digestivos e não conseguia ingerir álcool, e segundo minha interpretação, seus problemas fisiológicos foram de tal forma exacerbados que ele sucumbiu à loucura por impossibilidade orgânica de encontrar um paliativo existencial para os terríveis mal-estares que sofria.

A importância do dionisíaco na conduta humana, representado no calendário das festas populares, na embriaguez e na celebração coletiva de danças, teatro, desfiles e variedades, está na origem da cura dos sintomas de ansiedade do mundo antigo e permanece como uma terapêutica eficaz até os dias de hoje, influindo decisivamente como um antídoto para a conduta obsessiva da humanidade.

Não há portanto possibilidade de se evitar o fanatismo se não houver uma reforma na religião islâmica pela criação de uma dissidência (entre tantas já existentes) que não seja hostil a cultura dionisíaca que conhecemos no Ocidente, e que possa prosperar arrebanhando seus desregrados e se pacificando para sempre. Até que isto aconteça, minha receita consiste em pegar um fanático e aplicar-lhe dois porres de vinho por semana, em um ambiente festivo tal que ele possa se derramar em riso e acordar com uma ressaca tão imobilizadora que todo o pensamento de hostilidade aos outros se dissolva em sua própria culpa, aprendendo com isso a pensar em si mesmo e em seus deveres como indivíduo, e a esquecer os outros. Um islamofanático bêbado cantando O Último Desejo de Noel Rosa vai estar curado para sempre. Está aberta a sugestão para a criação da primeira clínica de cura de fanáticos. O tempo urge.