segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Ópio dos Intelectuais

"Retirado en la paz de estos desiertos,
com pocos, pero doctos, libros juntos,
vivo en conversación com los difuntos
y escucho com mis ojos a los muertos"
Quevedo

Uma paródia do Manifesto Comunista parece ser a melhor forma de caracterizar o presente momento em que vivemos: o fantasma do comunismo ronda o Brasil. Pelas escolas e universidades, jornais e revistas, a herança marxista infesta as redações como uma praga divina.

Nunca um governo pobre de espírito, inepto para as ações administrativas, irrisório para qualquer consideração humanística, parece ter sido tão bem qualificado em todos os lares e bares, e subitamente essa confiança entrar em crise. Nunca um movimento político conseguiu tantas adesões na classe universitária, no professorado do ensino médio e nos meios sindicais.

Agregando novas interpretações à surrada doutrina marxista, aplicando uma demão verde ao conteúdo vermelho, esse movimento político levou o país a professar insanamente o sucesso de uma ideologia que já havia sido provada equivocada, mas cujos viúvos apegados à sua fé não se davam por vencidos.

Persistindo na mesma argumentação do passado, não se deram o trabalho de uma reflexão mais aprofundada dos nossos males estruturais, e nem mesmo se permitiram uma oxigenação de novas ideias, pelos limites estreitos de seus evangelhos carcomidos.

Nos anos 50, Raymond Aron escreveu seu célebre livro ‘O Ópio dos Intelectuais’, como resposta à inteligência francesa que – radicada na universidade – fazia do proselitismo estalinista sua bandeira de luta. Enquanto a França se recuperava de suas feridas de guerra com dinheiro americano, os intelectuais franceses esbravejavam contra os EUA e em defesa da revolução proletária.

Sessenta anos depois, o Brasil passa pelo mesmo pesadelo. E a abordagem de Aron não perde sua atualidade. A força do marxismo está em seus mitos subtraídos furtivamente do legado cristão e utilizados como fundamentos para entender o passado, o presente e o futuro através de uma escolástica própria (doutrina que mistura fé com razão).

Aplicando o método marxista ao Brasil, podemos entender por que nossos intelectuais se intoxicam tão facilmente com suas profecias. O marxismo brasileiro possui qualidades que só uma nação avessa ao iluminismo poderia desfrutar: transformar mitos descartados pela história em motivo para criar celebridades nacionais.

Para Aron, os mitos do marxismo são os seguintes:


O Mito da Esquerda

Este primeiro mito citado por Aron, talvez seja o seu único que não se adapta à realidade brasileira. O Mito da Esquerda é entendido por ele como a ideologia que combina: a propriedade estatal dos meios de produção, a hostilidade com a concentração econômica e a suspeita nos mecanismos de mercado.

A impessoalidade do mercado é sentida como algo aterrador, como uma ameaça à liberdade de escolha, como uma sujeição às grandes empresas capazes de subjugar os consumidores com a força do marketing.

Quase sempre são empresas transnacionais que, sendo impiedosamente criticadas, adquirem uma conotação esquizofrênica na mente estatista, ao lhes atribuir o papel de conspiração para subjugar as mentes, envenenar os corpos e destruir a liberdade individual pela escravização dos consumidores aos seus produtos.

Diversos exemplos de acidentes industriais, relatórios de danos ambientais e sociais são utilizados para justificar e confundir a produção econômica com uma conspiração contra os consumidores.

O conteúdo mitológico-esquizofrênico desse pensamento supõe que o modo de produção do capitalismo avançado esteja interessado em suprimir os consumidores pela doença, pelo envenenamento progressivo ou por qualquer outra ação destrutiva, em vez de protegê-lo como bem indispensável aos lucros da empresa, e que a vigilância do governo não seja suficiente para coibir abusos. Segundo esse raciocínio, só a estatização pode resolver o problema dos danos sociais e ambientais, como a poluição.

Revelador de uma inversão fundamental, esse pensamento guarda um propósito que só poderá ser manifestado quando efetivamente esse tipo de consciência tomar o poder: o descaso total para com as pessoas subjugadas pelo governo marxista.

A facilidade com que se propagam boatos sobre a irresponsabilidade social das empresas está na mesma proporção da perda de escrúpulos para sustentar a verdade no resto da vida pública.

Aron usa o termo “Mito da Esquerda”, embora no caso brasileiro o estatismo pertença tanto à esquerda como à direita. Ele é, portanto, um mito mesmo, abrangente, e está relacionado com nossa latinidade, especialmente com a Contrarreforma.

Outro componente do Mito da Esquerda consiste na pregação da igualdade social. Sobre isso, não existe uma análise mais acurada sobre as diferenças humanas de capacitação, nem a impossibilidade prática da igualdade. Para uma sociedade de funcionários públicos, a igualdade estaria assentada no primado da proximidade da remuneração, evidenciando assim a possibilidade concreta da igualdade relativa, sem no entanto resolver o problema do talento humano relativamente ao mérito. Este mito é um dos mais importantes para a educação marxista e foi objeto de um artigo meu, anos atrás, intitulado A Ilusão da Igualdade Social.

O Mito da Esquerda combina também um desejo profundo de reforma social com a eliminação das elites dirigentes, entendendo que somente a tomada do poder de uma nova classe política, tanto pelo voto como pela ação revolucionária, será capaz de implementar tais reformas.


O mito da revolução

Trata-se de um mito lapidar e de origem religiosa. O tipo de revolução marxista previsto por Marx e seguidores do século XIX nunca ocorreu porque sua concepção própria era mítica: nem o desenvolvimento das forças produtivas, nem a chegada ao poder da classe operária abriram caminho para a derrubada do capitalismo pela classe trabalhadora, consciente de sua missão.

Tal como as revoluções de todo o passado humano, a chamada “revolução proletária” meramente levou à substituição de uma elite por outra. Ela não apresentou características especiais para ser considerada como o “fim da pré-história”, como anunciaram os marxistas.

A concepção mítica da revolução consiste em interpretar a história como o motor do progresso social, pela qual o regime capitalista entra em crise dando lugar a uma nova ordem liderada pelo proletariado que toma o poder e estabelece um sistema transitório, chamado ditadura do proletariado, para conduzir a sociedade à sua redenção, ou seja, a uma sociedade sem classes chamada comunismo.

A redenção é também um componente subtraído do cristianismo, e neste não tem relação com a vida social, porém com o homem em sua fé. O marxismo se especializou em contrabandear os elementos da fé cristã para a sua doutrina de redenção da humanidade, na qual o mito da revolução seria o grande marco histórico referencial da passagem para um novo tempo de paz, harmonia e felicidade. Não tivesse o marxismo descaradamente furtado os elementos fundadores do cristianismo, ele não seria uma doutrina tão cativante e capaz de sobreviver a toda a demonstração racional de sua falência social.

Para o marxismo, a história assume o papel de um profetismo: a revolução proletária será essencialmente diferente das revoluções do passado, pois ela permitirá a humanização da sociedade. Somente o profetismo poderia permitir a convicção de que uma liderança partidária estaria seguindo as leis da história e trabalhando para um fim, que será inevitável e redentor, e que lhes permitiria eliminar quaisquer escrúpulos de culpa para promover as execuções de seus inimigos.


O mito do proletariado

Na escatologia marxista, o proletariado assume o papel de salvador coletivo. Trata-se mais uma vez de uma cópia das origens judaico-cristãs da classe eleita pelo sofrimento para a redenção da humanidade. A missão do proletariado, o fim da pré-história sangrenta e de sofrimento do homem graças à revolução – a conquista da liberdade final – estão atrelados à ideia do Messias, de rompimento com o passado, e com a promessa do Reino de Deus.

Nessa escatologia não se entende por que o proletariado tem de ser uma classe revolucionária. Na América Latina, não havia proletários nas guerrilhas de El Salvador e Nicarágua nos anos 80, nas FARC, no Sendero Luminoso, e nem na guerrilha do Araguaia.

Os revolucionários são, na maioria, egressos da universidade que se intitulam a vanguarda do proletariado, como apropriação necessária a uma representação social que só eles se conferem. No movimento estudantil brasileiro, que é o principal fornecedor de quadros para os partidos de esquerda, quase ninguém tem procedência operária.

Assim, a teoria do partido como vanguarda do proletariado nasceu da necessidade de dar direção às massas, sempre propensas a conquistas modestas e, ao mesmo tempo, contrárias às visões apocalípticas.

Para Marx, o proletariado era o servo que iria se revoltar, destituir o patrão e assumir o comando dos meios de produção não para si mesmo, porém para todos. Seus líderes, mais do que dirigentes políticos, seriam os profetas de uma NOVA FÉ a serviço da redenção humana.

O discurso da “emancipação” do proletariado é outro mito gerado na presunção de que o poder socialista tratará as classes proletárias de forma mais humanizada do que o capitalismo. Mas se um operário continua na sua fábrica, como se pode dizer que foi emancipado? E se ganha um salário irrisório e muito inferior ao pago pelos países capitalistas avançados, como se pode dizer que foi “libertado do jugo capitalista”?

Pelo mito marxista, o proletariado é a classe destinada a fazer do velho mundo um novo mundo onde não mais haveria a perversão do dinheiro, onde o capital não tivesse monopolizado e pervertido tudo. A classe operária levaria consigo a juventude do mundo, e o Partido Comunista estaria organicamente vinculado a ela na luta de classes.

O novo mundo seria a continuação na terra da promessa cristã (enfatizada pelos marxistas), guiada pela imanente filosofia que através da explicação científica propõe-se a ser um ponto final em toda a história de sofrimento e crueldade que tem sido o passado humano.

Toda essa construção mítica está voltada para o objetivo da tomada do poder. Trata-se de uma pseudociência criada para anunciar o advento de um novo mundo. A tomada do poder se transforma na emancipação da classe operária pela simples declaração dos dirigentes revolucionários, e não por mudanças na realidade.

Logo, o marxismo não é ciência. É mais um conjunto de asserções em que o real passa a ser o nomeado. Mistura a tradição romântica com uma visão poética de encantamento sobre o futuro, no qual o proletariado é o depositário dos novos valores e sua luta representa a luta de toda a humanidade. Todavia, a negação desses valores significa uma “traição de classe”, sujeita a pesadas sanções reservadas aos hereges.


O mito da História

Já falei sobre este mito na parte do mito da revolução. Porém, cabe uma palavra mais porque é complementar aos demais. A história foi tornada ciência, no sentido de que suas leis ocultas se tornaram conhecidas. A lei oculta é a certeza de que a história se move em direção ao socialismo, que a configura como o regime que irá substituir o capitalismo e instaurar o reino da abundância.

Os marxistas reivindicam que esta lei se torne “a filosofia da história”. A obtenção desse objetivo será feita pelo partido, elevado à condição de vanguarda do proletariado. Essa vanguarda se caracteriza por sua infalibilidade. Não existe um só partido comunista que no período dourado do estalinismo não tenha reivindicado para sua direção o status de infalível. Esta atribuição divina é, não obstante, a condição para a crueldade contra os oponentes. Se um partido não erra, mas apenas considera errados seus dissidentes, seus traidores, seus revolucionários que abjuraram a fé no grande líder, ele precisa suprimir toda a oposição, por mais branda que seja para que sua doutrina ou seu plano de governo sejam impostos sem contestação, e sobretudo para que sua verdade se estabeleça.

O marxismo se apropria da esfera religiosa e sua força provém exatamente de ser uma pseudorreligião. Não pode ser destruído pela razão, pois seus crentes são completamente impermeáveis a ela.

Assim, quando os mensaleiros foram condenados, o partido reagiu como se os mensaleiros estivessem fazendo algo regular, normal, perfeitamente aceitável para quem crê nos fins últimos de seus propósitos.

Para eles, a corrupção não é mais entendida como a negação da lei ou como um delito social, mas como uma estratégia de superação do capitalismo e de seus males, e que uma vez consolidada a nova direção no Poder, vai eliminar a corrupção para sempre.

Este propósito não se sustenta a não ser pela calhordice de permitir que o clero da nova fé tenha direitos sobre a apropriação indébita em nome da causa. E essa causa só pode valer para o clero e ser tolerada para os crentes, mas nunca para os hereges.

Assim, quando houve a denúncia de corrupção envolvendo Demósthenes Torres e José Roberto Arruda, o clero da nova fé foi o primeiro a declarar inaceitável tal comportamento, por não condizente com a moral. Mas com relação às denúncias contra José Genoíno e João Paulo Cunha, condenados do mensalão que reassumiram suas cadeiras no Congresso, esta flagrante ilegalidade foi vista pelo clero da nova fé com naturalidade.

Trata-se de um sentimento que só pode estar escorado na fé e não na razão. Somente a fé com propósitos situados no fim último de um futuro paradisíaco é que pode justificar a dupla razão e a contradição.

E Aron conclui com sua insuperável perspicácia: “a lógica confirma o que as sucessivas doutrinas sugerem: filosofias da história não passam de teologias seculares”. Existe um vínculo entre a história e o fanatismo, na visão do fim da história como a sociedade da abundância que não pode ser aceita senão na sublimidade de seus propósitos. Mas é o fim sublime do homem, postulado na teoria marxista, que justifica a brutalidade dos meios. E isso não vale só para o marxismo, mas para todos os fundamentalismos contemporâneos.


O repertório crítico

A partir desses fundamentos, a crítica marxista produziu (e continua produzindo) um besteirol crítico de proporções avassaladoras. É impossível reduzir todo o amontoado de fraudes criado em proveito da ideia do advento de um novo tempo chamado sociedade sem classes. Vou citar apenas um: o uso da dialética para fins próprios.

O que antes era uma especulação filosófica, no marxismo se transformou em palavra mágica para combater o capitalismo e apresentá-lo como uma sociedade agonizante. Através do talismã chamado dialética, o marxismo anuncia a derrocada do capitalismo em qualquer momento histórico de crise econômica e social.

Foi assim no fim do domínio colonial europeu, confundindo capitalismo com imperialismo a ponto de afirmar que o sistema baseado na propriedade privada e no livre mercado era incapaz de funcionar se não tivesse territórios para explorar. E desde então o mesmo raciocínio percorre as décadas com a força de um dogma.

A falsa noção de que a história se move por forças deterministas é talvez o pior legado do marxismo, um veneno que contaminou até mesmo os liberais. É absolutamente falso dizer que uma ação tomada hoje, define os rumos da história amanhã. Para que isso fosse verdade, os agentes teriam de ter a onipotência que não existe entre os seres humanos.

Aron discute essa questão na filosofia da história para mostrar como a história evolui a partir de escolhas postas para o personagem que de nenhuma forma pode ser vista como determinista. Nem César, ao cruzar o Rubicão, nem Hitler, ao desencadear a operação Barbarrosa tinham consciência dos fatos que se desenrolaram a partir de suas atitudes no sentido da evolução que tiveram.

Outras pessoas em seus lugares certamente teriam tomado atitudes diferentes, o que configura que a história não pode ser movida por forças deterministas. O ultimato que os ministros austríacos deram ao governo de Belgrado em 1914 poderia ser de outro tom – e se a primeira grande guerra fosse postergada uns poucos anos, a revolução russa teria sido abortada e a configuração do mundo estaria totalmente modificada.

Alguns meses atrás, publiquei um artigo do historiador inglês H. R. Trevor-Roper a propósito desse assunto, com um argumento diferente, porém bastante próximo: História e Imaginação.

Aron desenvolve o argumento a respeito das predições históricas, afirmando que eventos históricos são previstos na mesma extensão em que são explicáveis casualmente. As interpretações retrospectivas formuladas tanto em termos de afirmações factuais: “as coisas aconteceram assim”, ou “tal motivo estava na origem de tal curso de ação”, não permitem que saibamos o que vai acontecer amanhã.

Entretanto, existem fatores previsíveis. Para quem conhece o economicídio dos regimes populistas, os países bolivarianos estão fadados a entrar em crise e fenecer sob a revolta das massas, pois já sabemos que a escassez e o empobrecimento são o resultado geral desses regimes.

O descaso com a lei praticado pelo clero bolivariano, sua cupidez e falta de escrúpulos terminaram revertendo-se no desrespeito à lei pelos crentes dos escalões inferiores e ao fim colocando toda a sociedade em desordem.

A promessa de um futuro luminoso transformou-se num pesadelo sombrio. E o passado denegrido por eles começa a parecer bem melhor do que o presente exaltado.


Os intelectuais em busca de uma religião

Paralelos entre socialismo e religião são bastante antigos. Mas no Brasil, foram escassamente utilizados. A expansão do marxismo pelo mundo guarda similaridades com a expansão do cristianismo.

A este respeito, adverte Aron: “igualmente clássicos são os argumentos surgidos dessas comparações. Acaso uma doutrina sem Deus merece ser chamada religião? Os próprios crentes negam a conexão, mas insistem em que sua crença não obstante é compatível com a fé tradicional – não seriam por acaso os cristãos progressistas uma prova viva da compatibilidade entre o comunismo e o catolicismo?” (p. 265).

Pergunta feita em 1953-55, bem antes da Teologia da Libertação, a mais sofisticada e elaborada tentativa de vinculação do cristianismo com o marxismo, e que mantém representantes até hoje militando a causa do castrismo.

“O fato é que o comunismo sempre guardou sentimentos parecidos com os cruzados de todas as épocas. Ele fixa a hierarquia dos valores e estabelece as normas de boa conduta. Ele satisfaz, no indivíduo e na alma coletiva, algumas das funções que os sociologistas normalmente atribuem às religiões. Mas para a ausência do transcendente ou do sagrado, os comunistas não o negam categoricamente, porém argumentam que muitas sociedades através dos tempos ignoraram a noção de um ser divino sem ignorarem a forma de pensamento e sentimentos, de obrigações e devoções, que o observador de hoje considera como religião” (p. 265).

Para Aron, as ideologias de Direita e Esquerda, Fascismo e Comunismo, são inspiradas pela moderna filosofia da imanência: elas são ateístas, mesmo quando não negam a existência de Deus, ao ponto em que concebem o mundo humano sem referência ao transcendental...

Tal qual nas religiões do passado, as paixões determinavam qual a Igreja que deveria ter o monopólio da missão de interpretar as Sagradas Escrituras e distribuir os sacramentos eliminando todas as outras como seitas hereges, no presente, os partidos comunistas disputam entre si quem é o verdadeiro intérprete das escrituras marxistas e se posicionam para eliminar seus concorrentes com a mesma vênia dos cruzados.

O profetismo marxista está em conformidade com o padrão típico do profetismo judaico-cristão. Todo profetismo condena o que existe e esboça um quadro do que deveria ser ou do que virá; ele escolhe um indivíduo ou um grupo para traçar o caminho à terra de ninguém que separa o miserável presente do futuro radiante.

Para que o sistema comunista de interpretação nunca seja flagrado em carência, a delegação do proletariado ao Partido deve ser total e irrestrita. Isso por sua vez provoca a necessidade de ele negar fatos incontestáveis — a substituição dos conflitos reais e multifacetados da vida humana na luta dos seres humanos em um destino pré-ordenado. A partir daí, surgem o escolasticismo, as intermináveis especulações sobre infraestrutura e superestrutura, as distinções entre significados sutis e vulgares, a rejeição da objetividade e a necessidade de reescrever a história: não existe nada que eles não saibam, eles nunca estão errados, e a arte da dialética permite-lhes harmonizar qualquer aspecto da realidade de um país com uma doutrina que possa ser torcida em qualquer direção.

O militante é persuadido a acreditar que pertence a um pequeno número de eleitos, que está encarregado da salvação de todos. O crente, acostumado a seguir os torcimentos da linha política do partido, a repetir feito papagaio as interpretações sucessivas e contraditórias de vexames como o pacto Nazi-Soviético, por exemplo, ou a “Conspiração” dos Sábios de Sião, torna-se, em certo sentido, um novo homem.

De acordo com a concepção materialista, os homens treinados através de um certo método tornam-se dóceis à autoridade e completamente satisfeitos com sua porção. Os engenheiros das almas não têm dúvidas sobre a natureza plástica do material psíquico à sua disposição.

Costuma-se dizer que a fé comunista é distinguível da opinião político-econômica somente por sua intransigência, que uma nova fé é sempre intransigente, e que as Igrejas se tornam inclinadas à tolerância quando são corroídas pelo ceticismo.


Militantes e simpatizantes

Modernamente, os conceitos marxistas no pós muro de Berlim estão em constante mutação. Eles migraram do terreno da sociedade e da história, onde foram derrotados, para tentar ressurgir de suas antigas ideias rousseaunianas a respeito da natureza.

Fundaram um sistema de interpretação da ecologia e do meio ambiente, que vai do ecomisticismo ao ecofatalismo, como indiquei em artigo.

Por um processo de imantação, todas as ideias que se aglutinam em torno do catastrofismo são defendidas pelas viúvas do muro de Berlim. O pensamento de uma crise iminente do capitalismo, verdadeira paranoia marxista, continua vigente no marxismo do século XXI.

Porém, o fenômeno mais importante ainda é a impossibilidade de certo pensamento intelectual latino-americano compreender que a levedura marxista está radicada em uma sociedade de privilégios, no amplo leque de instrumentos que vai dos cartórios aos sindicatos de contribuição compulsória, da burocracia estatal às entidades de registros profissionais, do modelo de representação política às empresas estatais.

Todo um universo de deformidades sociais, que se originou no passado colonial e que se expandiu incessantemente no estatismo é um instrumento ao qual o marxismo adere e se enraíza, solapando qualquer abertura democrática. Não entender que esse instrumento precisa ser eliminado faz parte da impotência de um certo pensamento de direita, dependente de um passado pré-moderno.

Achar que o marxismo possa ser erradicado só pela evangelização para a virtude das ideias certas é um dos maiores blefes dessa corrente, e uma postura não condizente com a modernidade.

Para a modernidade, pouco importa se um motorista de táxi conversa sobre marxismo ou sobre futebol com seu passageiro. O que importa é o modo de como ele conduz e cobra a corrida. Para a corrente nostálgica de um passado aristocrático, o taxista deve ser um homem preparado e doutrinado para a virtude cívica. Tropeça num idealismo fundamentalista e, não podendo revelar seu pecado, na adoração espartana da sociedade construída em torno de um Estado virtuoso, sempre deixará o caminho livre para que na primeira descompressão, surjam as ervas daninhas do nada sobre o terreno sequioso pela primavera de liberdade.

O único declínio possível da fé que confunde a missão de Cristo com o socialismo é a superação da sociedade que confunde democracia com oligarquia (e está agora dividindo espaço com a nomenklatura).

Somente uma sociedade baseada na propriedade privada e com um estado mínimo poderá fenecer a fé, cujo evangelho sempre foi a adoração do Estado. Quem combate o comunismo e não combate o Estado é apenas um agente disfarçado de uma mesma tirania.

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